O milho é uma das principais fontes de energia utilizadas na alimentação de bovinos, principalmente em sistemas de produção de leite e em confinamentos. Entretanto, a forma como esse grão é processado pode influenciar diretamente o aproveitamento do amido pelos animais.
Entre as estratégias utilizadas para aumentar a disponibilidade do amido está a reidratação e posterior ensilagem do milho moído, conhecida como milho reidratado.
Essa técnica consiste, de maneira geral, em moer o milho seco, adicionar água até atingir uma determinada umidade e armazená-lo em condições anaeróbias para que ocorra a fermentação. Durante esse período, acontecem alterações físicas, químicas e microbiológicas que podem aumentar a disponibilidade do amido para a digestão.
Porém, é importante entender que milho reidratado não é simplesmente milho misturado com água. O resultado depende de vários fatores, como matéria seca, quantidade de água adicionada, granulometria, homogeneização, compactação, vedação, tempo de armazenamento, estabilidade aeróbia e formulação da dieta.
Neste artigo, vamos entender como funciona o processo, quais são seus possíveis benefícios e quais cuidados devem ser adotados para obter bons resultados.
O milho reidratado é produzido a partir do milho seco, que é moído e posteriormente recebe água para elevar sua umidade antes de ser armazenado em condições de ensilagem.
O objetivo é transformar um grão originalmente seco em um material com maior umidade, permitindo que ocorra um processo fermentativo durante o armazenamento.
Uma característica importante é que o milho reidratado não deve ser confundido com o milho de alta umidade ou milho úmido colhido diretamente da lavoura.
No milho de alta umidade, o grão é colhido com elevada umidade e posteriormente processado e ensilado. Já no milho reidratado, o grão é colhido e armazenado inicialmente em condição seca e, posteriormente, recebe água antes da ensilagem.
Essa diferença é importante porque o milho reidratado permite trabalhar com o estoque de milho seco disponível na propriedade, possibilitando realizar a reidratação conforme a necessidade.
O principal objetivo da reidratação é aumentar a disponibilidade do amido presente no grão.
O milho, especialmente aqueles com maior vitreosidade, possui uma estrutura de endosperma bastante compacta. Dentro dessa estrutura, o amido está associado a uma matriz proteica que pode dificultar o acesso dos microrganismos ruminais e das enzimas digestivas.
Quando o milho passa pelo processo de moagem, hidratação e fermentação, essa estrutura pode sofrer alterações.
Durante a ensilagem, ocorre uma combinação de processos:
Como consequência, o amido pode se tornar mais disponível para digestão no trato gastrointestinal.
Entretanto, isso não significa que todo milho reidratado necessariamente proporcionará maior produção de leite ou ganho de peso. O benefício depende de como o alimento é produzido e de como ele é utilizado dentro da dieta.
O amido representa uma das principais fontes de energia do milho. Entretanto, sua disponibilidade para o animal não depende apenas da quantidade presente no grão. A estrutura do grão também é importante.
Em muitos milhos utilizados no Brasil, principalmente aqueles de maior vitreosidade, o endosperma apresenta uma matriz proteica bastante resistente. Essa característica pode limitar o acesso dos microrganismos do rúmen ao amido.
Durante o processo de reidratação e ensilagem, a combinação entre água, moagem e fermentação favorece alterações nessa estrutura.
A fermentação produz ácidos orgânicos e ocorre atividade proteolítica, contribuindo para a degradação parcial da matriz que envolve o amido.
Com o avanço do período de armazenamento, pode ocorrer aumento da disponibilidade do amido, principalmente quando o milho foi adequadamente processado e armazenado. Por isso, o tempo de armazenamento é uma variável importante.
Em termos práticos:
Milho seco → moagem → adição de água → ensilagem → fermentação → alterações na matriz do grão → maior disponibilidade do amido.
Esse processo ajuda a explicar por que a utilização do milho reidratado pode apresentar resultados diferentes daqueles obtidos simplesmente com milho seco moído.
A produção de milho reidratado exige atenção em todas as etapas. Erros no cálculo da água, na moagem, na mistura ou na conservação podem comprometer a qualidade do alimento.
O primeiro passo é conhecer a matéria seca (MS) do milho que será utilizado.
Não é recomendável simplesmente adicionar uma quantidade fixa de água ao milho sem conhecer sua umidade inicial.
O milho seco normalmente apresenta matéria seca elevada, enquanto o milho destinado à ensilagem precisa apresentar uma quantidade maior de água.
Uma faixa frequentemente utilizada para milho reidratado é próxima de 63 a 65% de matéria seca, correspondendo aproximadamente a 35 a 37% de umidade.
Entretanto, o valor final deve ser definido de acordo com as características do processo, do armazenamento e do sistema utilizado na propriedade.
O milho deve ser adequadamente processado antes da reidratação.
A moagem aumenta a área de superfície das partículas e facilita:
A granulometria também interfere na velocidade de desaparecimento do amido no rúmen.
Partículas muito grandes podem dificultar a hidratação e a fermentação. Por outro lado, uma moagem excessivamente fina pode aumentar rapidamente a disponibilidade do amido no rúmen quando o alimento for fornecido aos animais.
Portanto, a granulometria deve ser definida considerando o tipo de milho, equipamento disponível, sistema de armazenamento e formulação da dieta.
A quantidade de água deve ser calculada de acordo com a matéria seca inicial e a matéria seca desejada.
Uma fórmula prática é:
Quantidade de água = [(Quantidade de milho × MS atual) ÷ MS desejada] − Quantidade de milho
Exemplo:
Imagine que você tenha:
Aplicando a fórmula:
Água = [(1.000 × 0,87) ÷ 0,65] − 1.000
Água = 1.338,46 − 1.000
Água = 338,46 litros de água
Portanto, seriam necessários aproximadamente 338 litros de água para cada 1.000 kg de milho, considerando essas condições.
É importante lembrar que esse valor muda conforme a matéria seca real do milho.
Por isso, a quantidade de água não deve ser definida apenas por uma receita fixa.
A água precisa ser distribuída de maneira uniforme sobre o milho.
Uma hidratação irregular pode resultar em regiões muito secas e outras excessivamente úmidas, prejudicando a fermentação e aumentando o risco de perdas.
A água pode ser adicionada durante a moagem, utilizando sistemas de distribuição apropriados, ou posteriormente, durante a mistura.
Independentemente do método utilizado, é fundamental garantir uma mistura homogênea.
O objetivo é que todas as partículas recebam quantidade semelhante de água.
O uso de inoculantes pode ser considerado como uma ferramenta para auxiliar na conservação e estabilidade aeróbia da silagem, principalmente quando o material apresentar maior risco de deterioração após a abertura do silo.
Entretanto, é importante entender que nem todo inoculante possui a mesma finalidade.
Para milho reidratado, a escolha do microrganismo deve considerar principalmente o objetivo do tratamento.
Inoculantes contendo microrganismos capazes de aumentar a produção de ácido acético, como determinadas cepas de Lactobacillus buchneri, podem contribuir para melhorar a estabilidade aeróbia do material após a abertura.
Essa característica é particularmente interessante porque o milho reidratado pode apresentar baixa estabilidade aeróbia, favorecendo o aquecimento e a deterioração quando fica exposto ao oxigênio.
Por outro lado, inoculantes predominantemente homofermentativos, utilizados principalmente para acelerar a produção de ácido lático, não necessariamente proporcionam o mesmo efeito sobre a estabilidade aeróbia.
Portanto, a escolha do inoculante deve ser feita de acordo com:
A dose não deve ser generalizada para todos os produtos. Deve-se seguir a recomendação presente no rótulo do produto e a orientação técnica do fabricante.
Além disso, o uso de inoculante não substitui uma boa compactação, vedação e manejo do silo.
Depois da adição da água e da homogeneização, o material deve ser adequadamente compactado.
A compactação tem como objetivo retirar o máximo possível de oxigênio presente entre as partículas.
Quanto melhor a compactação, maior a possibilidade de estabelecer rapidamente um ambiente anaeróbio, condição fundamental para uma boa fermentação.
Uma compactação inadequada pode favorecer:
A compactação deve ser realizada de maneira uniforme, evitando a formação de bolsões de ar.
Após o preenchimento e compactação, o silo deve ser cuidadosamente vedado.
A entrada de oxigênio deve ser minimizada durante todo o período de armazenamento.
Uma vedação inadequada pode comprometer todo o trabalho realizado anteriormente.
Pontos de atenção incluem:
Quanto maior o período de armazenamento, maior deve ser o cuidado com a conservação da massa ensilada.
O tempo de armazenamento é outro fator importante.
Durante a ensilagem, as alterações na estrutura do grão continuam acontecendo. De maneira geral, períodos mais longos de armazenamento favorecem maior disponibilidade do amido.
Um período de pelo menos 60 dias é frequentemente utilizado como referência prática antes da utilização do milho reidratado.
Em casos de emergência, o silo pode ser aberto a partir da segunda ou terceira semana (15 a 21 dias), quando a fermentação inicial já se estabilizou. Contudo, para extrair o melhor valor nutritivo do material e garantir a máxima conversão alimentar, o ideal é manter a estrutura vedada por pelo menos dois meses.
O efeito do tempo depende de fatores como:
Em determinadas situações, a moagem mais fina pode favorecer uma maior disponibilidade do amido mesmo com menor tempo de armazenamento. Porém, isso não significa que o armazenamento prolongado deixe de ser importante.
Quando possível, trabalhar com maior tempo de armazenamento pode favorecer a ocorrência das transformações desejadas durante a fermentação.
Sim. A granulometria influencia diretamente o processo de reidratação e a utilização do alimento pelo animal. Quanto menor o tamanho das partículas, maior tende a ser a área de superfície disponível para:
Entretanto, reduzir excessivamente o tamanho das partículas não significa necessariamente obter melhores resultados.
Uma moagem muito fina pode aumentar rapidamente a disponibilidade do amido no rúmen. Isso pode ser interessante em algumas situações, mas também exige atenção na formulação da dieta, especialmente quando grandes quantidades de milho reidratado são utilizadas.
Uma disponibilidade muito rápida de amido pode aumentar a fermentação ruminal e a produção de ácidos, exigindo equilíbrio adequado entre:
Portanto, a granulometria deve ser definida junto com a dieta, e não analisada isoladamente.
O principal benefício esperado da técnica está relacionado à maior disponibilidade e digestibilidade do amido.
Diversos trabalhos experimentais observaram aumento na digestibilidade do amido quando o milho seco foi substituído por milho reidratado e ensilado.
Entretanto, os resultados não são completamente uniformes.
Em algumas situações, foram observados aumentos na digestibilidade e no aproveitamento dos nutrientes. Em outras, diferenças no consumo, produção de leite ou eficiência alimentar foram pequenas ou inexistentes.
Isso acontece porque o resultado não depende apenas da reidratação.
É necessário considerar a interação entre:
tipo de milho + processamento + granulometria + matéria seca + tempo de armazenamento + dieta + manejo alimentar.
Assim, não é correto afirmar que o milho reidratado sempre aumentará a produção dos animais.
Depois que o silo é aberto, a retirada deve ser suficientemente rápida para evitar que uma grande quantidade de material permaneça exposta ao oxigênio.
Uma referência prática é trabalhar com uma retirada diária na ordem de 20 a 25 cm da face do silo, sempre considerando o tamanho do silo, o número de animais e o consumo diário.
O dimensionamento do silo deve ser feito levando em consideração:
Um silo muito grande para o consumo da propriedade pode apresentar uma taxa de retirada insuficiente, aumentando o tempo de exposição da face ao oxigênio.
Alguns erros podem comprometer significativamente o resultado.
Adicionar água sem conhecer a matéria seca inicial pode resultar em um produto muito seco ou excessivamente úmido
A quantidade de água necessária varia conforme a matéria seca do milho.
A água precisa ser distribuída uniformemente.
Partículas muito grandes podem dificultar a hidratação e o aproveitamento do amido.
A presença de oxigênio prejudica a conservação.
Entrada de ar e água podem comprometer a qualidade da silagem.
O período de armazenamento é importante para que ocorram as alterações desejadas durante a fermentação.
Uma face exposta por muito tempo aumenta o risco de deterioração aeróbia.
O inoculante deve ser escolhido de acordo com seu objetivo e utilizado na dose recomendada pelo fabricante.
A diferença de matéria seca entre o milho seco e o milho reidratado precisa ser considerada na formulação (Importante consultar o Zootecnista para melhores resultados).
O milho reidratado pode ser uma alternativa interessante principalmente quando o sistema possui condições adequadas para produzir e armazenar o alimento.
Entre as situações em que a estratégia pode ser avaliada estão:
Por outro lado, a técnica pode não apresentar vantagem quando não existe estrutura adequada de armazenamento ou quando o manejo do silo é deficiente.
Também é importante considerar o custo total do processo.
O produtor deve avaliar:
milho + moagem + água + mão de obra + equipamento + inoculante, quando utilizado + estrutura de armazenamento + perdas + manejo.
A comparação deve ser feita com o custo e o valor nutricional do milho seco ou de outras fontes de energia disponíveis.
Antes de iniciar o processo, confira:
☐ Realizar boa compactação.
☐ Fazer uma vedação eficiente.
☐ Evitar entrada de água e oxigênio.
☐ Respeitar período adequado de armazenamento.
☐ Dimensionar corretamente o silo.
☐ Garantir uma boa taxa de retirada após a abertura.
☐ Monitorar aquecimento e sinais de deterioração.
☐ Ajustar a dieta considerando a matéria seca real do alimento.
☐ Avaliar a matéria seca do milho.
☐ Definir a matéria seca desejada.
☐ Calcular corretamente a quantidade de água.
☐ Realizar a moagem adequada.
☐ Garantir distribuição uniforme da água.
☐ Homogeneizar completamente o material.
☐ Avaliar a utilização de inoculante conforme o objetivo de conservação.
☐ Utilizar a dose recomendada pelo fabricante.
O milho reidratado é uma estratégia que pode aumentar a disponibilidade do amido e melhorar o aproveitamento energético do milho, especialmente quando o processo de moagem, hidratação, ensilagem e armazenamento é realizado corretamente.
Entretanto, o sucesso da técnica começa muito antes do fornecimento aos animais.
É necessário controlar a matéria seca, calcular corretamente a quantidade de água, garantir boa moagem e homogeneização, realizar compactação e vedação eficientes, respeitar um período adequado de armazenamento e ter atenção especial à estabilidade aeróbia após a abertura.
O uso de inoculantes também pode ser uma ferramenta importante, principalmente quando o objetivo é melhorar a estabilidade do material diante da exposição ao oxigênio. Porém, o produto escolhido deve ser compatível com o objetivo do processo e utilizado conforme a recomendação técnica do fabricante.
Outro ponto fundamental é não comparar milho seco e milho reidratado simplesmente pelo peso na matéria natural. A matéria seca deve ser considerada na formulação da dieta, assim como a concentração e a disponibilidade dos nutrientes.
Dessa forma, o milho reidratado deve ser visto como uma estratégia de processamento capaz de modificar a utilização do amido, mas que precisa estar associada a boa gestão, controle do processo, conservação adequada e uma dieta nutricionalmente equilibrada.
Quando esses fatores são corretamente controlados, a reidratação pode se tornar uma ferramenta interessante para melhorar o aproveitamento do milho e a eficiência do sistema de produção.
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