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Pecuaris

Importância do DCAD na nutrição de vacas no pré-parto

O período de transição, especialmente as semanas que antecedem o parto, é uma das fases mais importantes no manejo nutricional de vacas leiteiras. Nesse momento, o animal passa por diversas alterações metabólicas e fisiológicas que o preparam para o parto e para o início de uma nova lactação.

Entre os principais desafios desse período está a manutenção da homeostase do cálcio. Após o parto, a demanda por cálcio aumenta de forma muito rápida, principalmente devido à produção de colostro e leite. Quando o organismo não consegue responder adequadamente a essa demanda, ocorre redução da concentração de cálcio no sangue, podendo resultar em hipocalcemia clínica ou subclínica.

É nesse contexto que o DCAD (Dietary Cation-Anion Difference), ou Diferença Cátion-Aniônica da Dieta, ganha importância.

O que é o DCAD?

Os minerais presentes na dieta podem ser classificados, de maneira simplificada, como cátions, quando apresentam carga positiva, ou ânions, quando apresentam carga negativa.

Na formulação de dietas para vacas no pré-parto, os principais minerais considerados no cálculo do DCAD são:

  • Cátions: sódio (Na⁺) e potássio (K⁺);
  • Ânions: cloro (Cl⁻) e enxofre (S²⁻).

Uma das equações mais utilizadas para calcular o DCAD é:

DCAD = (Na + K) − (Cl + S)

Os valores devem ser expressos em mEq/kg de matéria seca (MS). Existem outras equações de DCAD na literatura, mas essa é uma das mais utilizadas na prática nutricional.

De forma geral, quanto maior a quantidade de cátions em relação aos ânions, mais positivo será o DCAD. Já quando há maior quantidade de ânions, o DCAD se torna negativo.

Por que utilizar um DCAD negativo no pré-parto?

Para entender a importância do DCAD, primeiro precisamos compreender o que acontece com o cálcio próximo ao parto.

Logo após o nascimento do bezerro, a vaca passa por um aumento muito rápido na demanda por cálcio. O colostro e o leite apresentam concentrações consideráveis desse mineral, fazendo com que uma quantidade significativa de cálcio seja direcionada para a glândula mamária.

Ao mesmo tempo, a vaca ainda está se adaptando ao aumento da demanda nutricional do início da lactação e pode não conseguir absorver cálcio suficiente pela dieta para compensar imediatamente essa necessidade.

Por isso, o organismo precisa aumentar rapidamente a utilização de mecanismos responsáveis pela manutenção da concentração de cálcio no sangue, incluindo a mobilização de cálcio dos ossos e o aumento da absorção intestinal.

Quando essa adaptação não ocorre de maneira eficiente, aumenta o risco de hipocalcemia.

A hipocalcemia clínica, também conhecida como febre do leite ou paresia puerperal, ocorre principalmente no início da lactação e pode causar fraqueza, decúbito e, nos casos graves, morte. Além disso, alterações no metabolismo do cálcio podem estar associadas a maior ocorrência de outros problemas no período pós-parto.

A Tabela 1 demonstra a relação entre o DCAD da dieta e a incidência de febre do leite em diferentes estudos. De maneira geral, observa-se que dietas com DCAD mais negativo estão associadas a uma menor ocorrência de hipocalcemia, enquanto dietas com valores positivos apresentam maior incidência do distúrbio. Esses resultados reforçam a importância do uso de dietas acidogênicas no período pré-parto como estratégia para preparar o metabolismo da vaca para a elevada demanda de cálcio após o parto.

Tabela apresenta o efeito de diferentes valores de DCAD da dieta sobre a incidência de febre do leite em vacas, relacionando autores, DCAD, número de animais e porcentagem de casos.

A Imagem abaixo apresenta algumas das principais consequências associadas à hipocalcemia em vacas leiteiras. Além de comprometer diretamente a saúde e o bem-estar dos animais, a redução do cálcio sanguíneo está relacionada ao aumento da ocorrência de problemas.

Diagrama mostra a relação entre hipocalcemia em vacas leiteiras e o aumento do risco de mastite, cetose, deslocamento de abomaso, retenção de placenta, metrite, distocia e ovário cístico, com respectivos fatores de risco.

Como o DCAD negativo ajuda no controle da hipocalcemia?

A utilização de uma dieta com DCAD negativo no pré-parto tem como objetivo provocar uma acidose metabólica leve e compensada.

Isso é importante porque o equilíbrio ácido-base influencia a resposta do organismo ao paratormônio (PTH), um dos principais hormônios envolvidos na manutenção da concentração de cálcio no sangue.

Quando ocorre redução do cálcio circulante, a glândula paratireoide aumenta a secreção de PTH. Esse hormônio atua principalmente sobre os ossos e os rins e participa indiretamente da ativação da vitamina D.

O PTH estimula mecanismos que aumentam a disponibilidade de cálcio para o organismo. Entre eles estão a maior mobilização de cálcio do tecido ósseo e a ativação renal da vitamina D.

A acidificação metabólica promovida pelo DCAD negativo aumenta a responsividade dos tecidos ao PTH, facilitando a mobilização de cálcio e contribuindo para uma resposta mais eficiente à grande demanda que ocorrerá após o parto.

Portanto, o objetivo não é simplesmente “causar acidose” na vaca. O objetivo é produzir uma acidificação controlada, suficiente para estimular os mecanismos de homeostase do cálcio sem comprometer o consumo de matéria seca ou o estado metabólico do animal.

A importância da vitamina D

Outro componente fundamental nesse processo é a vitamina D, principalmente sua forma biologicamente ativa, o calcitriol (1,25-diidroxivitamina D₃).

Quando a concentração de cálcio no sangue diminui, o PTH estimula, nos rins, a conversão da vitamina D para sua forma ativa. O calcitriol aumenta a capacidade de absorção intestinal de cálcio e fósforo e também participa da regulação do metabolismo ósseo.

Dessa forma, existe uma relação importante entre:

DCAD negativo → acidificação metabólica → maior resposta ao PTH → ativação da vitamina D → maior disponibilidade de cálcio.

Essa adaptação ajuda a preparar a vaca para o aumento abrupto da demanda por cálcio que ocorre no início da lactação.

Qual DCAD utilizar no pré-parto?

Para vacas no período pré-parto, uma faixa frequentemente utilizada para dietas acidogênicas é de aproximadamente:

−50 a −150 mEq/kg de MS.

Essa faixa deve ser entendida como uma referência de formulação, e não como um valor que deve ser aplicado de maneira indiscriminada a qualquer rebanho. A resposta do animal depende da composição da dieta, dos ingredientes utilizados, do teor de potássio das forragens e da quantidade e fonte dos ânions adicionados.

Um dos principais desafios na utilização do DCAD é justamente o controle do teor de minerais dos alimentos. Forragens, por exemplo, podem apresentar grande variação na concentração de potássio, o que altera significativamente o DCAD final da dieta.

Por esse motivo, não basta apenas formular uma dieta com determinado valor de DCAD no papel. É necessário acompanhar a resposta dos animais.

Monitoramento do pH urinário

Uma das principais ferramentas utilizadas para avaliar a resposta das vacas a uma dieta acidogênica é o pH urinário.

A acidificação da dieta provoca alterações no equilíbrio ácido-base do organismo, que podem ser acompanhadas por meio do pH da urina.

De acordo com recomendações práticas, um pH urinário médio próximo de 6,5 pode indicar uma acidificação adequada em vacas submetidas a dietas acidogênicas. Valores muito baixos podem indicar acidificação excessiva, enquanto valores elevados podem indicar que a dieta não está promovendo acidificação suficiente.

O acompanhamento deve ser realizado de forma periódica, principalmente porque mudanças na composição das forragens ou na inclusão dos sais aniônicos podem alterar rapidamente a resposta dos animais.

Além disso, é importante observar o consumo de matéria seca. Uma acidificação excessiva pode reduzir o consumo, prejudicando a ingestão de energia no final da gestação e aumentando o risco de problemas metabólicos no período de transição.

Como tornar a dieta mais aniônica?

Para reduzir o DCAD, é necessário diminuir a participação relativa dos principais cátions ou aumentar a participação dos ânions na dieta.

Na prática, isso pode ser feito por meio da escolha de ingredientes com menor concentração de potássio e pela utilização de fontes de ânions, como alguns sais contendo:

  • cloreto de cálcio;
  • cloreto de magnésio;
  • sulfato de cálcio;
  • sulfato de magnésio.

A escolha da fonte e a quantidade utilizada devem ser determinadas de acordo com a formulação da dieta, pois diferentes produtos apresentam diferentes concentrações de ânions e características de palatabilidade.

Também é importante lembrar que o DCAD não deve ser analisado isoladamente. A dieta pré-parto precisa atender simultaneamente às exigências de energia, proteína, fibra, minerais e demais nutrientes necessários para o período de transição.

DCAD negativo não significa simplesmente “quanto mais negativo, melhor”

Esse é um ponto importante.

Um erro comum é pensar que uma dieta com DCAD extremamente negativo necessariamente proporcionará uma melhor proteção contra a hipocalcemia.

Na realidade, o excesso de acidificação pode ser prejudicial. Dietas muito acidogênicas podem reduzir o consumo de matéria seca e comprometer a ingestão de nutrientes. Por isso, o objetivo é encontrar um nível de acidificação que favoreça a homeostase do cálcio sem prejudicar o consumo e o desempenho da vaca.

Portanto, a utilização do DCAD deve ser acompanhada de monitoramento, principalmente por meio do pH urinário e da avaliação do consumo de matéria seca.

DCAD e manejo do período de transição

O controle do DCAD é apenas uma parte do manejo nutricional do período pré-parto.

Uma estratégia eficiente de prevenção da hipocalcemia deve considerar também outros fatores, como:

  • composição mineral da dieta;
  • ingestão de cálcio;
  • níveis de fósforo;
  • disponibilidade de magnésio;
  • teor de potássio das forragens;
  • consumo de matéria seca;
  • condição corporal;
  • manejo alimentar;
  • conforto e redução do estresse;
  • qualidade e homogeneidade da mistura da dieta.

Além disso, é importante lembrar que os problemas observados após o parto muitas vezes têm origem em falhas ocorridas durante o período de transição. Por isso, o manejo nutricional deve ser planejado antes que a vaca chegue ao parto.

Conclusão

O DCAD é uma importante ferramenta nutricional para o manejo de vacas leiteiras no pré-parto, principalmente por sua relação com a prevenção da hipocalcemia e a adaptação do metabolismo do cálcio ao início da lactação.

A utilização de uma dieta com DCAD negativo promove uma acidificação metabólica leve e controlada, aumentando a resposta dos tecidos ao PTH e favorecendo mecanismos responsáveis pela manutenção do cálcio sanguíneo, como a mobilização óssea e a absorção intestinal de cálcio mediada pela vitamina D.

Entretanto, o sucesso dessa estratégia não depende apenas de atingir um determinado número de DCAD na formulação. É fundamental considerar a composição dos ingredientes, principalmente o teor de potássio das forragens, utilizar corretamente as fontes de ânions e acompanhar a resposta das vacas por meio do pH urinário e do consumo de matéria seca.

Assim, quando corretamente formulado e monitorado, o DCAD negativo deixa de ser apenas um cálculo mineral e passa a ser uma estratégia de preparação fisiológica da vaca para o parto e para os desafios do início da lactação, contribuindo para uma melhor adaptação metabólica e para a redução do risco de hipocalcemia.

Em outras palavras: o objetivo do DCAD não é apenas tornar a dieta negativa, mas preparar a vaca para responder melhor à enorme demanda de cálcio que começa no momento do parto.

Referências:

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